19.10.09

poema sem traquejos



Escrevo uma carta como quem diz um poema em silêncio. Um poema sem traquejos ou maquiagens. Um amor engraçado maior que o corpo de um gigante. Um amor autofalante. Invento um poema centopeia. Cada pé uma palavra amiga. Todo tempo eu adiante. Meus olhos avistam sua chegada. Te abraço por um longo tempo e solto um suspiro que diz mais que as palavras que escrevo. Silencio. Nossos corações tamboram um mesmo tumtumtum de amor. Tuiuius sobrevoam as nossas cabeças. Estamos em pleno dezembro. A luz do sol está bem próxima à Terra. Estamos aquecidos pelo fogo. E não cabemos mais no poema.

18.10.09

ânima



Quando eu sabia fazer poemas
teus gestos inventavam minha mão
e o caracol das letras não precisavam de mim.
Depois eu perdi o traquejo de dizer as coisas
e cada dia soube rabiscar-me em linhas tortas.
Eu fiquei toda por dentro às avessas
e dava de conversar com os livros.
Até que você me aparece em carne e osso
e diz que a vida expandiu-se no verso.
Então eu escrevi só pra exercitar a fala:
o sopro que anima é o mesmo que espalha.

17.8.09

Sonho de Esmeralda

O sonho de Esmeralda era sempre compridíssimo às terças-feiras. Nas noites de calor projéteis holográficos, inevitavelmente, eram disparados no éter. E ai de quem dissesse que aquele coração não sabia das falas implícitas do amor. Então recriava as vias até confundir-se com as veias do próprio vilarejo, e incendiava as pestanas do sol com seus pavios de desejo a exalar perfume-flor de ameixeira.


Geralmente, ficava a espreitar seus sonhos de um lugar invariavelmente alto. Ela pensava: há um anjo na arquibancada dos meus devaneios. E fantasiava mundos onde a chuva servia de pingos de is; onde o tempo apostava corrida com Deus, e reinventava o futuro da vida; onde a imaginação era movida a batimentos cardíacos e tum tum tum de tambores. Eu soltava bolhas de sabão para enfeitar os sonhos dela. O vento se encarregava de esvoaçar seus cabelos.


Trouxe Esmeralda comigo do Zimbábue. Suas andanças transparecem nos anéis de crescimento visíveis da alma. Invento as mãos das ruas, os pés dos jardins e os bancos das praças, porque sou a criação. Cosmos e casas e costumes e cornetas a costear o corpo-a-corpo do fogoso jogo das letras.


16.7.09

poema-carta


Plantei um poema-carta para dizer: o amor sabe escrever seus silêncios. Fiz isso, pois as letras têm pés e curvas e podem tocar os olhos e fazer afagos. É o arredondar dos abraços que cabe no círculo da boca a dizer - quem diz fala do tempo e da alma, dos tapetes voadores e histórias fantásticas. Mas uma imagem caberia melhor nestes sobrevoos: um balão movido por intensas labaredas de fogo a sobrevoar toda a cidade. E lá do alto avistasse o potencial humano de mudar o rumo das coisas. Meu trifásicoração a eletrificar os postes das ruas pavimentadas. Transeuntes a movimentar o moto-contínuo aqui-agora dos seres. Não sei voar, por isso canto.



18.6.09

pergaminho do fogo

Menos silêncio houvesse e seria a culminância da obra. Mas não: são as voltas. Como me tornar mais humana? Como provocar as chamas incisivas da fala? O amor é mais largo que a morte. O tempo não dissolve palavras escritas em cartas. Por isso escrevo, para fazer do tempo uma espécie de abraço enorme. O conforto é usar vírgulas no lugar de ausências. O corpo sabe dos lugares das páginas. Quando foi que nossas letras entrelaçaram os pés? Sempre sei a próxima frase, mesmo quando a boca é outro nome, e o nome a presença aguda da falta. Não é poesia o que escrevo e me permaneces a alargar as ruas, as vias, as praças. Porvir é pássaro livre. Voar é epifania. Na imaginação o amor acende o sol, a distância o desejo. Querer perto e beijo é oásis no deserto? O rio da vida deságua em mar aberto... O ponto final não aprisiona o tempo da história. Papel e pele guardam a memória do imponderável. As linhas não contém a língua. A língua escreve em papel-corpo o pergaminho do fogo.




Lau Siqueira publicou esse meu miniconto lá no POESIA SIM. Tomei coragem e coloquei aqui tamém.


5.6.09

o livro de joana

O trecho abaixo é do meu livro "A MENINA QUE SONHAVA SER MÁQUINA DE ESCREVER". Disponível para download no portal literal.


Ultimamente Joana está impressionadíssima com o aquecimento global. Joana imaginou que a Terra era um caminhão e as calotas polares, os pneus. Então pensou assustada: “se as calotas estão derretendo significa que o pneu furou, mas onde é que estão os estepes?”

Altamira tem certeza de que as rodas substitutas estão no coração de cada um que ama o planeta. Acredita no livro que escreve porque sua vida é ser porta-voz dessa bandeira. “Devemos poupar os recursos naturais, construir uma sociedade solidária e utilizar os nossos conhecimentos para viver no bem estar.”





28.5.09

minhas onomatopeias


A vida inteira é metragem: alargamento do coração.
O azul do céu disse que o amor ultrapassa o infinito.
Pesquei palavras num riacho de estima.
O pôr-do-sol parece falar de saudade e hiato.
Rimo distância com quase perto
e bem querer, minhas onomatopeias.
Enganei a estiagem com meus sonhos de chuva e tarde.
A noite repetiu com olhar-brilho-de-estrelas:
- Tenho sabor de enquanto!

24.5.09

EU MANGÁ


Um fã da Luisa me fez mangá.


18.5.09

Boa tarde, Senhor Smith!




Aqui vai o desenho inspirado em Boa tarde, Senhor Smith!(faixa 12).
O trabalho em si tá todo errado, porque era pra fazer uma composição de texto e imagem com base em uma grade de construção, sem precisar se preocupar com o conteúdo.
Eu não tinha entendido nada, mas acabei gostando.

Beijoos!
Ju



17.5.09

esse tal assunto de Amor

o amor no sossego
cuida do que há no peito
não foge
não rasga
não queima
coisa de quem se demora
nas urgências da vida.

O amor nunca vai embora.
Embala
Contenta
Retifica
O amor pratica mudo
O que dentro da alma grita.

16.5.09

rádio maluca

A Rádio Maluca apresenta o rádio às novas gerações e recupera a tradição dos programas de auditório. É um programa de rádio ao vivo, com participação da platéia e dos ouvintes.

O programa do ator, cantor, compositor e multimídia ZÉ ZUCA é uma usina de novidades, uma central de músicas e brincadeiras. As atrações deste sábado foram a cantora e compositora FLÁVIA MUNIZ+ DIMITRI BR e o CORPO CORAL PALAS, do colégio Palas.




6.5.09

os pulsos

Precisei o tempo a pintar-me a pele
e o silêncio a calar-me os pulsos.
A poesia arranca o peito das horas,
o vermelho-sangue jorra
e desata o véu da língua.

Que te guarde a máscara
e retenhas a saliva do beijo.
O amor rascante corta
Habita-me as entranhas cruas.
As ruas andam-me pelo avesso.

30.4.09

QUERO VER VERDEJAR

28.4.09

La mer se mêle avec la mer

O mar mistura-se ao mar
Mescla os seus laços, lagos, poças
Suas idéias de gaivotas e de espumas
Seus sonhos de algas e alcatrazes
Aos graves crisântemos azuis ao largo
Aos miosótis em tufos nos muros alvos das ilhas
Às equimoses do horizonte, aos faróis apagados
Aos sonhos do céu impenetrável.

De: MAULPOIX, Jean-Michel. "La mer se mêle avec la mer". In: LARANJEIRA, Mário (seleção, tradução e introdução). Poetas de França hoje. São Paulo: Edusp / Fapesp, 1996.

Encontrei esse poema no blog do Antônio Cícero.

25.4.09

zumanos ou desumanos?

Charge de Jonhatan Shapiro

A eleição do presidente Jacob Zuma, na África do Sul poderia levantar um grande debate. O Congresso Nacional Africano (CNA) é o mesmo partido, pelo qual Nelson Mandela foi eleito em 1994 - que lutava contra o Apartheid(brancos no poder impediam a maioria negra de exercer sua cidadania). Hoje, Nelson Mandela não tem mais voz ativa no partido. O partido também não possui as mesmas causas, porém exerce grande influência na população negra.

Esse Zuma é aquele que em 2005 foi acusado de estupro(e foi absolvido). A vítima usava uma roupa "provocante", segundo Zuma, e era portadora do Hiv. Ele afirmou não ter usado preservativo, porque para evitar o contágio ele:“toma uma ducha depois da relação sexual!”

A questão toda faz refletir sobre: o preconceito, o machismo, a opressão social do modelo econômico vigente, a solidariedade e o compromisso das autoridads em relação à cidadania. São apenas alguns pontos. Isso me faz concluir que a Aids é muito mais que um caso de saúde - ela é política, econômica, social e cultural. Porém, é anterior a epidemia, a capacidade desumana de oprimir em nome de cor, classe ou gênero.


23.4.09

a evolução


Pacífico é ser oceano? Supor outra coisa é desaver avidez de maré. Escrevo para tornar-me factível e depois toda água que evapora. Toda mulher renova, quando a liberdade sabe mais de abrir portas que as chaves. Eu nunca tive idade. Cada vez que me despeço, o horizonte me abre janelas. Envolvo a vida nas asas das coisas-pés. As coisas têm vida. As pessoas, uma coisa dentro. E os cheiros têm braços. Me desfaço dos fios de lágrimas do tempo, quase cambriana. O amor presume a evolução. Do poema restam fósseis. Respiro as frases, animo os desdizeres da alma. Pelo sangue, o veículo-corpo pisa o chão da terra. Todo dia o sol nasce no peito. A imaginação não tem paredes. Estico a rede nos coqueirais da vila. As pessoas daqui tem pressa. Ser humano carrega osso. Depois de moço, a carne desfibra. O espelho é testemunha das horas. Existo agora. O que é a bússola da vida?



19.4.09

saberes indígenas ancestrais



Rafael Moreira me passou o vídeo acima. Ele é de Brasília e enviou-me também um texto de sua pesquisa "Bandeirantes, Indígenas e a Arquitetura do Racismo Institucional". Ele interroga a cidade e pergunta qual o perfil dos não-cidadãos. "Há características que remetem a dinâmica de esfalecimento de ascensão social, de educação, transporte público eficiente, saúde, lazer, liberade religiosa, disponibilidade de água tratada e moradia, negligenciada a certas coletividades específicas de acordo com critérios raciais, de classe e de gênero".


18.4.09

mar sem sal



A produtora paulista Dragão Blasé fez um clipe para a música "Mar sem sal", da Luisa mandou um beijo. A direção é de Julian Campos e Nádia Mangolini. O vídeo foi todo filmado em Santos/SP.

Ahhh, quem for do Rio, anote na agenda: show da Luisa dia 26 de abril (domingo), no Espaço Multifoco (Rua Mem de Sá, 126 - Lapa), a partir das 19h, ao preço de R$ 10.

12.4.09

paduamba



Era o olhar penetrante que guardei na memória. Outras qualidades deixei no vão das pálpebras. A lembrança é um depositório de sucedências. Por isso mesmo é possível lembrar o nunca imaginado. Os amuletos de paduamba são feitos para isso. Técnica mista de sapiência e invento. Pergunto em voz alta: para que emudecer se é feito todo de palavras? Diga-me paduamba! Conte-me as entrelinhas do silêncio!



3.4.09

assunção

Sobre o tapete
Piso pés, margeio coragem.
Ajoelho-me em devoção.
Esforço,
descascar até o osso,
no branco do osso,
ganhar tempo,
vida elástica.
Impulso do ânimo,
deslimites do tempo.
Pequena morte.
Silêncio.

30.3.09

incêndio na aldeia fulniô


"Incêndio destruiu a casa de uma família indígena no Santuário dos Pajés na manhã desta segunda-feira, 30 de março. A casa pertence ao índio fulniô Towê, que se encontra em viagem ao nordeste brasileiro neste momento. Dentro da habitação foram destruídos bens pessoais como documentos, móveis, alimentos e peças de artesanato, utilizadas como material de trabalho por Towê. Não é a primeira vez que uma ação com estas características acontece na área, ano passado, a casa de outro indígena fulniô foi derrubada."

Para ouvir Cantos Sagrados Fulniô - Famíla Towê


11.3.09

nau argos



No pé de página está escrito: minha gravidez amanhece junto ao sol. Não sou poema. Sou esse desdizer de letras ávidas - alguma retina me permanece. O luar não pisca. Imagino o tempo: corre léguas antes. Futuro é tudo que não sei...

No corpo do livro é o que não está escrito. Os olhos margeiam - sílabas, fonemas, sussurros - pradarias extensas de nenhum poema. Meus nadas esclarecem silêncio: por isso escrevo... Depois vem a chuva. Ah! Alívio de saciar sede. Um oceano em cada gota. Ventania: vendaval de ser eu mesma... Minha natureza essa, sopro boquiaberto. Barqueio leme pra onde vou.

Perguntas não pensadas, respostas nunca vistas. Nem terra firme ou cais. Ar rarefeito imaginado. Existências quando. Pormenores extras. Coragem: desnudar marés .


9.3.09

inclusão social

Foi em dezembro que conheci as Arteiras na feira de economia solidária na Casa cultural Anitcha, porém elas são fruto da Agenda Social Rio e vêm desenvolvendo esse projeto desde 2003. As arteiras trabalham com reciclagem de papel e são moradoras da Tijuca.

O objetivo do grupo é gerar renda com a proposta ambiental, promover mudança de comportamento através do consumo ético. Vemos aqui os princípios do cooperativismo e da economia solidária. Tal trabalho busca estimular o crescimento do papel da mulher na economia do país, a inclusão social e a auto-sustentabilidade do grupo.

Eu apaixonei por elas! Viva as mulheres!!!





arteiras@agendasocialrio.org.br

5.3.09

hiato

Papel pequeno para dizer amor,
palavra grande para o indizível,
espaço vasto, interim da espera.
A pele não contém o sentido.

Os poros dilatam bem querer.
O poema se cala...

Acho palavras na areia,
o hálito da maré me beija.
ouve meu segredo - o silêncio.
Estou grávida de amanhãs...


2.3.09

pé da flávia

meu pé na areia

27.2.09

. amor e seu tempo .



Vídeo produzido por Márcio Yonamine: inspirado em Drummond e Fellini. Amor é filme! Este mesmo Márcio levou a Luisa mandou um beijo, para participar do Bandalheira em 2001. Tinha até sushi!!!

E por falar em Luisa: chegou o cd! E saiu matéria hoje, no segundo caderno do Globo.

26.2.09

sentido

Hoje quero a superfície rasa das águas claras.
Nada de rio largo ou passo fundo,
eu quero o sólido do mundo
e o tato dos que apalpam para crer na existência das coisas.

Hoje quero da noite, o claro nos olhos.
Toda cicatriz tem um sorriso amargo.
Deixo para amanhã a gravidade
e depois de amanhã a colheita de primaveras.

Hoje meus pés tocam o chão da terra.
Meu sentido é rumo à humanidade.

24.2.09

inflorescência de ver desnudar amor

Mas o que não cabia no entender, era como é que podia aquele homem adivinho do meu silêncio, do meu dentro, que nem eu sabia. Ele ateava mão do tudinho todo, do que não é de ser falado, do que se avergonha no vermelho das maçãs do rosto - e eu no disparo de digo-dizer por puro gosto de palavrear prosas. Palavras essas me chegaram na proximidade do sol quente, e nos conhecemos e nos fomos embora um do outro - pra cavar buraco de silêncio grande - minhas falésias...

O que havia de cumprir no mato de fora tava feito. No agora do depois que vem sou eu no adentrado de mim mesma. Nessas águas dos meus profundos recantos, é que vou matando a sede desse vasto lugar. Buscar pé de sombra no distante-dos-coqueirais é incendeio de fogo-fátuo no alheamento.

E não desdigo que não desdigo, que tudo isso é cavucação desse chefe-bicho-homem, lavrador dessa terra, paragens minhas, inflorescência de ver desnudar amor.

21.2.09

tic-tac do meu coração


Ná Ozzetti no show balangandãs
letra: Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva

20.2.09

amor pólis

Homem de muitos nomes:
as gaivotas voaram madrugada toda
para levar ao poeta meus pequenos desvarios.
Sonho de ostra é ser manhã de sol.
Traz isso inscrito no cerne
para saber de si mesma
quando intrépida
explodir em lampejos de chão de estrelas.

Homem que se disfarça,
dá-me tua face e rasga-me toda a pele.
Sou eu este fragmento...
Assobio de amor.
Amor pólis, oferta mãos
a cada filho de sua pátria.
Eis aqui o monumento erguido
ao lavrador de emoções desse lugar.

City Don`t Cry






16.2.09

ciclo natural

Ciclo Natural é um grupo que trabalha com educação, arte e ecologia. O objetivo é transformar através do olhar dos objetos cotidianos a realidade sonora. O que eles chamam "o som do lixo". Me lembrou o livro "O Ouvido Pensante", do Murray Shafer. Participei da oficina e até apareço no vídeo com um nariz de palhaço!!!

15.2.09

poema para soletrar ausências












Para ler minhas páginas:
folheei-me.
Lá no interior é que a gente vê essa língua que não cala...

Na chegada uma porteira,
noite escura sem lua iluminada.
Vi longa estrada de minhas ausências...

Mascarar desejo é desiluminância de lua?
Esse meu lampião bem preparado
é o que pode haver de bastar...

Senão, como atravessar?
Ia indo mesmo como fosse,
porque sempre se vai com os pés que se tem...

Não se fica parado de medo no escuro
em encruzilhada de porteira,
com silêncio-falador de mato linguarudo!

Mas no escuro com as ausências,
o medo que aflora tem nome.
E ao mesmo tempo é o que dá coragem.

Adentrei porteira, pisei barro do chão,
e segui destemida!
se não voltava dali mesmo...

É que as ausências me descarrilaram quando eu era trem.
E antes disso, na infância, eu era palácio...
Acho mesmo é que já nasci na ausência...

Eu sempre faltei nesse dentro de mim...